Este capítulo apresenta a fundamentação básica utilizada
na análise de redes sociais (ARS), com ênfase na sua modelagem
por meio de grafos. Inclui a apresentação de conceitos básicos,
a metodologia de pesquisa e de coleta de dados, a notação
matemática, e algumas análises numéricas descritivas.
O aprofundamento de determinados conceitos utilizados
na análise de redes está fora do escopo deste capítulo. Dois
exemplos são: modelagem longitudinal (ao longo do tempo)
e a análise estatística da estrutura e do comportamento das
redes. Mesmo nos tópicos apresentados, como a metodologia
e a modelagem matemática, este capítulo não pretende ser
exaustivo, visto que tais temas demandariam livros inteiros
dedicados a eles, sendo que há ótimos manuais disponíveis
(Wasserman e Faust, 1999; Carrington, Scott e Wasserman,
2005). A visualização de redes sociais é analisada em outro
capítulo deste livro.
De forma genérica, a análise de redes, que inclui tanto
a análise de redes complexas quanto a análise de redes sociais
(ARS), é uma metodologia que utiliza análises matemáticas
e estatísticas, geralmente fundamentadas na modelagem
por meio de grafos, para o estudo e a visualização de relações
entre entidades. Tal definição destaca um aspecto essencial
na metodologia: a ênfase se dá nas relações entre entidades,
em contraposição à ênfase que, em outros métodos de análise,
geralmente se dá nas características (ou atributos) das mesmas.
No caso especifi co das redes sociais em que as entidades
relacionadas são pessoas, Wetherell, Plakans e Wellman assim
caracterizam a metodologia de ARS:
Mais amplamente, a análise de redes sociais (1) conceitua
uma estrutura social como sendo uma rede na qual laços
(do inglês ties) conectam seus membros por meio de
canais, (2) foca nas características dos laços e não nas
características dos membros individuais, e (3) entende
as comunidades como ‘comunidades pessoais’, isto é,
como uma rede de relações individuais que as pessoas
desenvolvem, mantêm, e usam durante o curso de sua
vida cotidiana (Wetherell, Plakans e Wellman, 1994, p.
645. Original em inglês, tradução dos autores).
Os métodos de análise matemática utilizados para a
análise de redes são aplicáveis a diversas áreas do conhecimento,
dentre elas a Sociologia, a Antropologia, a Psicologia, a
Economia, a Física, a Computação, e a Ciência da Informação
(Matheus e Silva, 2006). De acordo com as diferentes
aplicações, as entidades a serem analisadas podem ser atores
sociais (e.g., pessoas, organizações, países, etc) (Wasserman
e Faust, 1999), páginas na Web (Barabási e Albert, 1999),
cientistas que escrevem em co-autoria (Newman, 2001; Otte
e Rousseau, 2002; Parreiras et al., 2006; Silva et al. 2006b),
sistemas físicos (Albert e Barabási, 2002; Newman, 2003),
dentre outros, como exemplifi cado por Dorogovtsev e Mendes
(2002). Além disso, naqueles trabalhos, as relações podem se
basear, dentre outros fatores, em amizade e aconselhamento
pessoal, em fl uxos de informações, fl uxos de material, fl uxos
de capital, interação físico-química, etc.
Com tantas aplicações, Otte e Rousseau (2002, p. 441)
argumentam que “a ARS não é uma teoria formal, mas muito mais
uma estratégia ampla para investigação de estruturas sociais”.
Na verdade, existe uma discussão epistemológica em torno do
que seria a análise de redes sociais. Para muitos autores, tratase
de uma metodologia de análise de dados relacionais que
permite a captação de diversos fenômenos sociais que se deseja
estudar, segundo uma área de conhecimento específi ca; para
outros, trata-se de um novo paradigma de análise estrutural
(Degenne e Forsé, 1994). Para outros, é uma tentativa de se
introduzir um nível intermediário entre os enfoques micro e
o macro na análise da realidade social ou entre o indivíduo e
a estrutura nas principais correntes da sociologia (Marteleto,
2001a). De qualquer forma, há uma linguagem e métodos
comuns de coleta e análise de dados que podem ser utilizados
em vários modelos teóricos e área de conhecimento.
Dessa forma, essa ampla gama de possibilidades
de pesquisa, incluindo as redes não sociais, baseia-se em
uma fundamentação matemática comum que utiliza a
modelagem, por meio de grafos, como base. Assim, devido
à essa fundamentação matemática comum, os métodos de
modelagem e análise desenvolvidos para a análise de atores
sociais (Wasserman e Faust, 1999; Watts, 2004) são aplicáveis
a outras áreas, como redes físicas complexas (Barabási e
Albert, 1999), e vice-versa.
Este capítulo trata da fundamentação matemática para
a análise de redes, com ênfase na ARS, nas quais as entidades
são atores sociais e, mais particularmente, quando as relações
se dão por meio do fl uxo de informações entre tais entidades.
Este capítulo é complementar ao artigo intitulado “Análise
de Redes Sociais como método para a Ciência da Informação
(Matheus e Silva, 2006).
O objetivo é fazer uma apresentação básica dos métodos e
técnicas disponíveis para a pesquisa em ARS e indicar caminhos
para aqueles que queiram seguir no estudo desse método, e não
discutir tópicos específi cos de maneira aprofundada.
Boas revisões de literatura e abordagens teóricas
sobre análise de rede, com foco em várias áreas do
conhecimento, estão disponíveis. Tal é o caso das revisões
de Watts, 2004, com foco na Sociologia; de Strogatz (2001),
com ênfase na topologia e no comportamento dinâmico de
diferentes modelos de redes complexas; de Newman (2003),
que contém uma ampla revisão matemática com ênfase
em conceitos e propriedades como agrupamento e grafos
randômicos, aplicados a problemas reais como redes sociais,
redes de informação, redes tecnológicas e redes biológicas;
a de Dorogovtsev e Mendes (2002), com ênfase na evolução
dos estudos de redes complexas e nas aplicações na Física.
As demais seções deste capítulo apresentam, pela ordem:
i) os conceitos básicos para ARS, necessários tanto para se
fazer pesquisas na área quanto para se entender o vocabulário
usado neste capítulo; ii) a modelagem matemática, que destaca
a modelagem por meio de grafos; iii) os métodos de análise,
que mostram fórmulas usadas no cálculo de características
como centralidade e prestígio; e, finalmente, iv) exemplos de
diferentes metodologias de pesquisa que têm sido adotadas.